Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007
"A Menina dos Fósforos"

“A Menina dos Fósforos”

 

 

Estava imenso frio, nevava e começava a escurecer. Era a última noite do ano, véspera de Ano Novo. Uma pobre menina de cabeça descoberta e pés descalços caminhava pelas ruas ao frio e às escuras. Ao sair de casa calçara uns chinelos, mas isso não lhe servia de nada, agora! Eram demasiado grandes para ela – na realidade eram da sua mãe e tão compridos que lhe saíram dos pés quando teve de correr pela rua, a fugir de duas carruagens que circulavam a grande velocidade. Quando as carruagens passaram, não conseguiu, de maneira nenhuma, encontrar um dos chinelos, e um rapaz fugiu com o outro, dizendo que poderia servir de berço ao filho que um dia teria.

            Por isso, a menina caminhava agora sem nada nos pés que já estavam roxos de frio. Tinha alguns fósforos no bolso do avental e um molhinho na mão, mas ninguém lhe tinha comprado nenhuns durante o dia todo. Ninguém lhe tinha dado sequer um tostão. Cheia de fome e gelada até aos ossos, a pobre menina continuou o seu caminho: uma imagem que metia dó. Os flocos de neve caíam nos seus longos cabelos louros que encaracolavam graciosamente junto ao pescoço, mas o que é certo é que ela nunca parara para pensar que poderia ser bonita. Em todas as janelas brilhavam luzes e, mesmo na rua, sentia-se um cheirinho delicioso a ganso assado, pois era a noite de Ano Novo. Nisso, ela pensou.

            Sentou-se num cantinho entre duas casas, uma das quais se encontrava mais afastada da rua do que a outra, e abraçou as suas perninhas; mas agora ainda sentia mais frio do que antes. Não se atrevia a voltar para casa porque não tinha vendido fósforos nenhuns, não tinha ganho nem um tostão e tinha medo que o pai lhe batesse. Além disso, em casa também estava frio: viviam num sótão e, apesar de terem tapado as frinchas maiores do telhado com palha e farrapos, ainda entrava vento. As suas mãozinhas estavam dormentes por causa do frio. Talvez a chama de um fósforo resolvesse isso! Será que ela ia ter coragem para tirar um fósforo do molhinho, acendê-lo e aquecer os dedos? Claro que ia: tirou um para fora, acendeu-o… e oh! ele brilhava e ardia! Dava uma chama clara e quente como uma vela pequenina. Pôs então as mãos em concha à volta do fósforo. Mas que luz tão estranha era aquela! A menina sentiu-se como se estivesse sentada à beira de um grande fogão de ferro, decorado com bolas e esferas de latão brilhante, com um lume tão quentinho a arder lá dentro! Estendeu os pés para os aquecer também, mas nisto a chama apagou-se. O fogão de ferro desapareceu e ali estava ela sentada com o minúsculo resto do fósforo queimado na mão.

            Acendeu outro fósforo que ardeu e brilhou. O local onde incidia a luz na parede parecia tornar-se transparente como um véu, o que permitia que ela visse para dentro do aposento. A mesa estava posta com uma toalha de um branco imaculado e uma louça muito fina; em cima da mesa encontrava-se também um ganso assado, recheado com ameixas e maçãs, a cheirar maravilhosamente bem. Mas o melhor de tudo foi que o ganso saltou da travessa, apesar de ter uma faca e um garfo espetados no lombo, e veio a rebolar pelo chão em direcção à menina. De repente, o fósforo apagou-se e já não se via nada a não ser a parede dura e fria.

            Acendeu um terceiro fósforo, e agora ela estava sentada debaixo de uma linda árvore de Natal, muito maior e mais bem decorada do que a que tinha visto através das portas envidraçadas da casa do comerciante rico, na véspera de Natal. Milhares de velas brilhavam nos ramos verdes, e bonequinhos de cores vivas como os que se vêem nas montras das lojas olhavam para ela com desprezo. A menina estendeu as mãos para o ar, mas logo o fósforo se apagou. As chamas de todas as velas de Natal ardiam cada vez mais alto e ela reparou que, afinal, eram estrelas brilhantes. Uma delas caiu, deixando para trás um rasto cor de fogo no céu.

            - Alguém está a morrer! – exclamou a menina, pois a sua avozinha sempre dizia que quando uma estrela cai é porque vai uma alma a caminho de Deus. A sua avó, que já havia morrido, tinha sido a única pessoa a ser boa para ela.

            Acendeu outro fósforo e, na sua luz, ela viu a própria avozinha, animada, resplandecente e bondosa. Mas que agradável visão!

            - Avozinha! – chamou a menina. – Leva-me contigo! Eu sei que tu vais desaparecer quando o fósforo se apagar, tal como aconteceu com o fogão quentinho, o delicioso ganso assado e a linda e grande árvore de Natal!

            E muito depressa a menina acendeu o resto dos fósforos uns atrás dos outros para conservar a avozinha ali. Os fósforos arderam com uma tal luz que estava mais claro do que de dia. A sua avozinha nunca tinha parecido tão alta e tão bonita. Pegou na menina ao colo e partiram em alegria e esplendor, subindo, subindo, indo para aquele lugar onde já não há mais frio ou fome ou dor, a ir ter com Deus. A menina foi encontrada no cantinho entre as duas casas, à luz gélida da madrugada. As suas faces estavam rosadas e tinha um sorriso nos lábios, mas tinha morrido de frio na última noite do Ano Velho.

            O Sol do dia de Ano Novo nasceu iluminando o pequenino corpo ali sentado com um molhinho de fósforos queimados.

            - Estava a tentar aquecer-se! – disseram. Ninguém sabia das bonitas visões que tivera e do modo como ela e a sua avozinha tinham partido para o esplendor e alegria do Ano Novo.

 

 

Andersen, Hans Christian, Contos de Andersen, Edinter




A Hora do Conto às 12:40
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